Bolha de paz e de felicidade.

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Ele me disse: – Parece que se criou uma bolha de paz e de felicidade que não deixa nada de ruim entrar, muito louco isso. Não sei explicar direito.

Fiquei pensando no poder da energia do bem. Como temos a força de fazer circular bons sentimentos e como eles nos protegem, criando mesmo essa bolha de paz e de felicidade.  É quase como se pudéssemos tocar o amor, de tão presente que ele se faz. Ninguém dá sem receber. Mesmo que faça sem querer nada em troca. É a lei da vida.

Tantas vezes penso na grandeza da doação da minha amiga e sempre penso também no marido dela. Esse cara que me disse isso aí em cima, indo pra casa, pra arrumar tudo, fazer o jantar e cuidar dos filhos, enquanto a mulher, grávida, descansa. Tantas vezes quantas pensar, vou chegar à mesma conclusão: eles se merecem.

O segundo começo.

Muita gente vai pensar o por quê de eu ter postado um texto escrito há mais de 2 anos no começo desse blog. Um texto sobre o meu primeiro filho e sobre as minhas tentativas frustradas de ser mãe novamente. A resposta é simples: tudo começou ali. Então, por onde mais eu começaria também? Por isso, para entender essa história toda, melhor ir lá no começo, no primeiro texto.

Ser mãe adotiva é um querer que me persegue. Não sei se por vocação ou por falta de saída, não posso mentir. O fato é que se foi por falta de saída que ele se instalou, meu coração me convenceu bem, porque esse desejo é latente em mim, mesmo agora quando tudo mudou. Ter a capacidade de amar e cuidar de alguém que não tem o meu sangue não seria absolutamente difícil. Saber ser capaz disso me engrandece perante mim mesma. Um filho adotado seria um troféu íntimo pela evolução de minha capacidade de amar. Um filho adotado seria a cereja do bolo de minha vida agora. Bom, talvez daqui a alguns anos, para não afugentar um marido assustado, porém cúmplice de minhas aventuras não planejadas.

A minha vida me surpreende. Jamais a imaginei tão fora do quadrado assim. Muitas pessoas me diriam: – que felicidade viver fora de padrões e estereótipos! Eu pensava isso também. Até que o meu caminho saiu do padrão justo na hora de eu ser mãe. Sabe mãe? Igual a sua, a minha, a do vizinho? Pois é. Eu queria ser mãe igual às outras. Padrão. Engravidar e parir. Engravidar, ter problemas e parir. Enfim, parir. Mas não era isso que o departamento lá de cima havia me reservado. E foi esse mesmo departamento que me enviou um presente: uma criatura com aquela capacidade expandida para amar que eu tanto persigo.

Há dois anos estou em meio a processos e espera no Cadastro Nacional de Adoção. E a espera é bem maior que essa. Vejo pretendentes de mãos atadas e colos vazios há quatro ou cinco anos até. Aquele discurso bonito do meu primeiro texto, sobre esperar, sobre a adoção ser a última opção para as crianças… Eu mudei. Continuo acreditando no poder imensurável do amor. Mas já não acho essa espera tão romântica assim. Mudei de ideia sobre a prioridade da adoção na vida das crianças, por exemplo. Se o amor deve ser independente de consaguinidade para quem adota, por que a justiça não age de acordo com essa lei maior também? Por que insistir tanto, quase implorar, para que a família biológica aceite uma criança tão desejada por centenas de pais e mães em uma sofrida fila? É muito triste. E nem todos têm a sorte que eu tive.

Mergulhada nessa espera, sem notícias e com um sentimento de revolta começando a me ocupar. É quando ela aparece da maneira mais inusitada para me fazer a mais amorosa de todas as ofertas que recebi nesses 37 anos. Numa mensagem de Facebook, entre links, pedidos de desculpas e um altruísmo até então desconhecido por mim, disse que queria me ajudar.

No Natal.

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Foi no Natal. Ela veio de mala, cuia, marido e dois meninos. Eu emprestei um quarto, um carro, companhia, boas risadas e algumas idas à praia. Ela se emprestou com toda a família. Voltaram pra casa levando meu sangue, minha carne, minha confiança e meu coração. Viraram ninho. Mas hoje eu sei que não nos emprestamos nada. Porque nunca mais nos devolveremos.

Sobre mães e elefantes

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Meu nome é Gabriela Breckenfeld, tenho 35 anos, sou casada, publicitária, empresária. Sou mãe de Tomé, onde quer que ele esteja agora, além de aqui, dentro de mim. Eu perdi meu bebê com 21 semanas de gestação. Ele já tinha nome, enxoval, berço e amor, muito amor.

Tenho SAAF, uma síndrome que interfere na coagulação sanguínea, favorecendo o risco de tromboses, principalmente durante a gravidez. Muitas mulheres têm SAAF e descobrem isso depois de vários abortos e muito sofrimento. A maioria encontra uma boa hematologista, toma injeções de heparina durante toda a gestação e depois do parto levam para casa o amor da sua vida. Mas comigo não foi assim.

Eu descobri que tenho SAAF aos 22 anos. Tive uma trombose cerebral, fiquei dias na UTI e sai dali com a promessa que seria tranquilo, com os cuidados certos, ter o meu bebê, quando fosse a hora. Eu acreditei. Namorei, casei e engravidei a primeira vez. Perdi o bebê logo no comecinho, com seis semanas. E superei. Como é comum ter uma perda gestacional, não achamos necessário fazer nenhum tipo de pesquisa.

Me preparei e, depois de dois anos, engravidei novamente consciente e feliz. Quando eu digo consciente é  tipo largar o emprego seis meses antes e abrir uma lojinha de cupakes com a minha mãe, na esquina de casa, para ter todo o tempo do mundo dedicado ao meu filho. E tudo deu certo até o dia do meu aniversário de 34 anos. Eu estava pronta para comemorar com meu marido e um casal de amigos quando percebi o sangue. Naquele momento, e falo do fundo do meu coração, naquele momento eu senti que Tomé não viria. Foram sete dias internada, vendo meu bebê brincar em cada ultrassom, mas aquela sensação do dia do meu aniversário não me deixava.  E, de repente, no oitavo dia, cheia de dor e pelo pior médico que poderia estar de plantão, eu soube que estava em trabalho de parto. O meu sonho foi embora de parto normal, nas mãos de um profissional insensível, frio, que, embora não tivesse qualquer culpa do que estava acontecendo, contribuiu para fazer aquele pior momento da minha vida ainda mais triste, ainda mais infeliz. Nem lembro do rosto dele. E é melhor que eu não lembre.

Depois desse dia, qualquer mãe pode imaginar a dor e o vazio que eu senti. Tive que reprogramar minha vida sem ter ideia de como fazer isso. Esperei a autópsia do meu filho e levei aquele papel horroroso para médicos obstetras e médicos hematologistas. Cautelosos, eles disseram que engravidar novamente seria correr o mesmo risco. Que todo o procedimento havia sido feito como os livros mandam, mas que meu corpo havia respondido diferente do que os livros dizem. Durante a minha gravidez, para insegurança da minha cardiologista, tomei a dose mais alta que um ser humano pode tomar de anticoagulante e, mesmo assim, a minha placenta trombosou. Além do risco de perder um outro bebê, ninguém sabia ao certo o risco que eu havia corrido de ter, por exemplo, uma embolia pulmonar. O caso é grave. Encarar isso foi o terceiro pior momento da minha vida. O segundo foi sair daquele hospital, depois de nove ou dez dias, com os seios cheios de leite e as mãos completamente vazias.

Eu sou espírita. Isso, entre outras coisas, quer dizer que aprendi e acredito que os filhos herdam dos pais a carne e só a carne. A carne vem da carne, mas o espírito, esse já existe. O espírito está apenas à espera da família que vai ajudar na sua evolução espiritual e moral aqui na Terra. Na maior parte dos casos, os nossos filhos nos escolhem antes de vir porque acreditam na nossa capacidade e no nosso amor para os ajudarem. Não quer dizer que eu não gostaria de gestar e de parir novamente. Sim, eu gostaria. Eu adoraria! E para falar a verdade, ainda penso nisso, apesar de todos os riscos. Mas resolvi abrir meu coração e pedir ao meu filho que venha, através de outra mulher, me encontrar. Eu decidi adotar.

Decidir pela adoção não foi difícil. Não poder parir é que é, porque essa impossibilidade faz com que eu não possa programar a vinda do meu filho. Eu só posso esperar. Mas muitas vezes acho que já vim preparada para ser mãe adotiva. Suzana Schettini, psicóloga maravilhosa, me fez rir em uma palestra quando disse que ama profundamente o seu marido, apesar de ele não ter o mesmo sangue que ela e de o ter conhecido já bastante crescidinho.  Para mim, é isso mesmo. Amor e consaguinidade são coisas diferentes.

E foi para falar exatamente sobre adoção que toda essa história começou a ser revirada. Pois bem, quando alguém decide adotar e conta isso às pessoas, todo mundo, com a maior boa vontade, quer ajudar. A partir do momento que os outros sabem, começam a surgir crianças em todos os lugares. Um monte de gente conhece alguém que vai ter um bebê e quer dar. E aí, a gente que está louca por um filho começa a sonhar! Eu me enchi de esperança três vezes. Por três vezes achei que o meu dia de ser mãe novamente havia chegado.

A primeira vez foi uma babá de uma amiga de uma amiga que ia ter uma menininha e não queria criar porque a mãe dela já criava um filhinho de três anos.  Nessa época eu estava em vias de abrir um quiosque de minha doceria em um shopping. Abri mão do quiosque. O que eu queria era tempo, todo o tempo do mundo para dedicar àquela bebezinha que vinha preencher o meu ninho. O meu quarto de balões azuis de repente ficou todo cor de rosa. Borboletas invadiram o céu, corações, floreszinhas. Forrei todo o armário com papel de listrinhas rosa. Tudo perfumado, lindo para a chegada dela. E na última hora, a mãe desistiu. Não consigo descrever minha frustração. Desfiz todo o quarto e prometi a mim mesma que não faria aquilo novamente. Mas, apesar da tristeza, entendi. Eu só não estava pronta para outra mudança de planos.

Aí, apareceu outra amiga que tinha uma babá que tinha uma conhecida de um amigo que estava grávida de um menininho e queria dar. A mãe tinha outro filho, era jovem, 21 anos, e decidiu que não queria outra criança. Dessa vez eu me envolvi ainda mais. Duas amigas-irmãs  levaram a mãe para o pré-natal, acompanharam os exames e tudo parecia que ia dar certo. Era final de ano e meu reveillon foi animado. Depois do ano novo, as notícias sumiram. O contato acabou. A mãe não atendia o telefone, nem retornava. Descobrimos, mas até hoje não sei se é verdade, que o bebê havia sido natimorto no dia 31 de dezembro. Enquanto eu sonhava com ele, o coitadinho deixava de nascer, segundo a própria mãe, por conta dos remédios para abortar que ela havia tomado antes de me encontrar. Vou pular a parte do sofrimento para não ficar repetitivo.

A terceira e última tentativa partiu de uma pessoa querida, que me ama e só quer o meu bem. Uma tia. Uma prima dela encontrou uma avó que sofria porque a filha que já tinha dois filhos estava grávida e elas não tinham nenhuma condição de criar outro bebê. Essa família se mostrou bem decidida. Eram de João Pessoa, os filhos viviam com o pai, separado da mãe, e esse bebê era de um ex-namorado que não queria a responsabilidade. A avó ligava e falava com minha mãe. A mãe ligava e falava com a minha mãe. Tudo parecia certo porque elas não demonstravam qualquer sentimento por aquela criança que ia chegar. Dessa vez o drama foi mexicano. Eu e meu marido já estávamos calejados. Não foi nada fácil convencê-lo a entrar nessa novamente. Foi aí que minha mãe se ofereceu para ir na frente para ter certeza, antes de eu me envolver ( como se fosse possível não estar já completamente envolvida), de que tudo sairia da maneira acertada. Então lá se foram os avós pretendentes para João Pessoa com o coração na boca e uma mala com enxoval para os primeiros dias. Chegaram na maternidade a tempo do parto, pegaram o bebê no colo, mandaram foto, conversaram com a avó e a mãe biológicas e disseram: Vem. Elas não amam essa criança. Ela é sua, pode vir.   Me enchi de coragem, contactei advogado, e fui embora com novos amigos que eu nem sabia que tinha para João Pessoa. Estava animada no carro, fazendo planos e quando cheguei ao hotel onde meus pais estavam hospedados fui recebida pela minha mãe com uma cara horrível. Desci do carro e disse: Ela desistiu, não foi?  Quase chorando, ela balançou a cabeça dizendo sim. Instantaneamente, reuni todas as minhas forças e liguei para o meu marido completamente envergonhada e me sentindo culpada por tê-lo convencido a enfrentar aquilo novamente. Ele só disse: Volte que eu estou lhe esperando.

Depois dessa, o sofrimento foi grande. É o que posso dizer. Parecia que nunca ia dar certo. Nesse meio tempo fiquei completamente deprimida. Tive que procurar um psiquiatra, tomar remédios, porque sem ajuda minha vida demoraria a ter sentido. Voltei para a terapia e não largo mais o meu psicólogo por um bom tempo. Hoje estou muito melhor, mas diferente.

Tempos depois, então, mais tranquilos, decidimos procurar a Vara da Infância e fazer as coisas como manda a lei.  É um processo. Preencher formulários, reunir documentos, ser entrevistados. Lembro que fiquei um pouco com raiva de ser entrevistada. Achava ridículo que eu, que já havia gestado e parido um filho, precisasse ser submetida àquilo. Encarava a entrevista como uma avaliação para saber se eu seria capaz de ser mãe. E não é nada disso. Meu preconceito foi surpreendido por uma equipe de psicólogas, psicopedagogas e assistentes sociais competentes e amorosas. Fui desarmada pelo conhecimento. Aprendi muita coisa na Vara da Infância, com as entrevistas e com os encontros com outros pais pretendentes. Aprendi que a adoção é a última opção para as crianças. Que é direito delas que a justiça tente reinserí-las em sua família.  E concordei, apesar de desejar avidamente que meu filho chegue logo. Aprendi que esperar faz parte. Que minha gestação vai ser tipo de elefanta, que espera 2 anos pelo seu elefantinho. Talvez eu espere mais!  Mas vai valer a pena. Talvez eu também chore de vez em quando e reclame muito. É porque eu sou normal.

O fato é que depois dessas três tentativas caóticas e fracassadas de ter o meu filho por outros meios e depois de conhecer todo o processo legal e me sentir completamente segura com ele, tenho a necessidade de gritar para todo mundo que, por favor, parem de adotar ilegalmente. Eu sei a angústia que é tentar fazer isso porque já senti na pele.  E a demora do sistema se dá também porque ainda existem muitas adoções fora do Cadastro Nacional de Adoção. Adotar legalmente pode ser mais demorado, mas é muito mais tranquilo. Não me imagino mais conseguindo dormir com medo de que a mãe biológica bata na minha porta para pedir seu filho (meu!) de volta. Apesar de dar certo para muitos,  não quero correr esse risco. Porque, na adoção fora do CNA, até a criança completar 3 anos, a mãe biológica pode mudar de ideia. E o juiz, apesar de laços de afeto estabelecidos, pode devolver o filho à genitora. Na adoção legal não há esse risco. O filho é seu e de mais ninguém. É o seu nome que vai estar na certidão de nascimento. Ponto.

Enfim, todo esse texto começou porque como mãe  e pretendente me sinto na obrigação de difundir a ideia da adoção legal  e  divulgar  um projeto modelo para todo o Brasil, criado pela  Segunda Vara da Infância do Recife e que pode ser replicado em todo o país. Esse texto é para falar para você, que quer adotar, e para você, que nunca vai adotar na vida, sobre o Projeto Mãe Legal. Esse projeto incrível permite que mães que já sabem, desde a gravidez, ou ainda na maternidade, que não vão poder criar ou não querem criar seus filhos, os entregue à justiça de maneira segura, sem qualquer julgamento. O Mãe Legal foi criado para evitar que nós continuemos a assistir a casos de crianças abandonadas no mato, embaixo de carros, em esgotos. Através desse programa, a criança é entregue pela mãe biológica e a justiça acata o seu desejo sem precisar buscar o restante da família dela, que nem precisa ficar sabendo. Dessa maneira, o bebezinho segue direto para pretendentes do Cadastro Nacional, e não fica em abrigos.

Se todas as pessoas que sabem de alguém que quer dar um bebê souberem desse programa, o sofrimento da mãe biológica, da criança e dos pais pretendentes diminui bastante. Chega de tentar fazer o papel da justiça!  Se as mães que querem dar o seu bebê souberem que podem fazer isso de maneira legal, sem serem julgadas, sem serem fichadas, sem serem presas. Se elas souberem que dessa maneira o seu filho vai imediatamente para uma família cheia de amor para recebê-lo, quanta diferença vai fazer!

Com o projeto Mãe Legal aprendi que abandonar é uma coisa. Entregar é diferente.  Quem abandona o seu filho não se preocupa com o futuro que essa criança vai ou não vai ter. Quer apenas se livrar de um problema. Mas quem entrega o filho à justiça abre mão de ser mãe com a certeza de que outra mãe, como eu, com o coração e o colo quentinhos, está ansiosamente esperando para receber o seu filho e torná-lo meu. Para sempre.

Se algum dia você souber que alguém quer dar um bebê, saiba que o que o que eu mais quero da vida é um filho. Por isso, lembre de mim! Não me procure, não me ligue.  Encaminhe essa mulher para a Segunda Vara da Infância do Recife e deixe que quem entende do assunto vai cuidar de tudo da melhor maneira. Faça isso por mim, pelo bebê e pela mãe biológica. Essa vai ser a maior ajuda que pode dar a todos nós. Obrigada. Conto com você para fazer o meu elefantinho chegar o mais rápido possível.

Para conhecer melhor o Projeto Mãe Legal: http://www.cnj.jus.br/index.php?option=com_content&view=article&id=15567%3Aprojeto-mae-legal-evita-abandono-de-recem-nascidos-em-pernambuco&catid=573%3Amaterias-especiais&Itemid=1844

Segunda Vara da Infância e da Juventude do Recife: Rua João Fernandes Vieira, 405, Boa Vista.