Sobre tolerância.

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Essa semana uma amiga querida nos marcou, eu e Dani, em um post de uma matéria sobre o primeiro caso de barriga solidária em Campo Grande. Incrível, achei. Porque torço e contribuo para que essa prática de amor seja divulgada e desmistificada e mais pessoas possam ser felizes. Tanto as que vão receber esse presente, quanto as que vão se entregar em empréstimo. Acredito que ninguém dá sem receber. Mesmo que faça sem querer nada em troca. É a lei da vida.

O negócio é que fui lá nos comentários e relembrei o quanto nós, seres humanos, somos capazes de julgar, de formar juízo de valor com pouco ou nenhum conhecimento de causa, sobre qualquer tipo de assunto. Inclusive a maternidade alheia. Claro que havia muita gente desejando felicidades, parabenizando e abençoando as irmãs em questão e a criança. Mas havia também uma parcela de detetives a querer saber de quem era o óvulo, de quem foi a ideia, e o mais importante, para eles, claro: de quem era o filho?

Nesse caso específico uma irmã recebeu um embrião formado pelo sêmem do cunhado e um óvulo doado, já que a outra irmã era infértil. Certo que a matéria era mal escrita e dava, sim, margem para diversos questionamentos. Mas nada justifica, pra mim pelo menos, a facilidade com a qual as pessoas se julgam superiores ou mais  merecedoras que as  demais.

Pra começar, uma confusão sobre quem era a verdadeira mãe. Uma corrente defendendo que a mãe é a que gerou. Outra, que a mãe é a que cria. E a última, a dona do óvulo. Imagine o caos, visto que essa daí é uma desconhecida. Aí, o problema virou outro. E a criança? Como vai ficar a cabeça dessa criança? Gerada por uma mulher, criada por outra e biologicamente de uma terceira.  Como o amor é difícil de ser aceito.

Ainda havia uma leva fervorosa querendo saber o porquê de um a pessoa se submeter a esse turbilhão emocional, envolver a irmã, a família toda, gastar dinheiro com inseminação, criar uma confusão se o Brasil tem tanta criança abandonada para ser adotada. Então, segundo alguns, essa mulher não queria um filho de verdade, ou teria adotado, simples assim.

Falar sobre adoção sem entender nada do assunto é, no mínimo, deselegante. Como julgar. E até eu, que seguro a minha onda, me magoei e chorei dessa vez. Vai ver é porque daquelas centenas de comentários os meus eram os únicos vindos de quem realmente sabe o que é participar desse triângulo amoroso da barriga solidária. Abençoado, bonito, mas muitas vezes emocionalmente desgastante. Só eu, dalí, sabia o que é passar por um processo de habilitação para adotar uma criança e esperar sem notícias. Dois, três, quatro anos ou mais.

Meus filhos já me ensinaram muito. Os três. Tanto, que respondi com cautela e generosidade alguns comentários, mas quando percebi que a insensatez não tem limites, em vez de esbravejar, em vez de xingar, parei. Meus filhos já me ensinaram que é preciso ser tolerante com as pessoas e com a vida. Deus sabe o quanto aprendi e sou grata por isso. Aceito o que não posso compreender. Tolero o que não posso combater sem ultrapassar a minha ética cristã. Paro porque, como ser humano, também sou capaz de sentir raiva, de julgar e de desdenhar. Mas meus filhos me ensinaram a ser corajosa, recuar e tolerar antes de chegar a esse ponto. Por vezes consigo, por vezes não. Mas sigo tentando.

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