É preciso mais que instinto às vezes.

33104316_

Ontem ouvi pela primeira vez ( e certa de que não será a última) Martim dizer que não gostava de mim. Foi no meio de uma crise que começou com muito sono e ressaca de piscina e se estabeleceu por causa de um pão dividido ao meio, que ele exigia fosse colado. Gritos demais. Esperneios. Tentativas de jogar objetos no chão. Pedidos de abraços (meus) veementemente negados. Estresse. Muito estresse. Apelei aos céus e rezei – Deus, o que é que eu faço pra ele se acalmar? Por favor! – Foi tão difícil. De um lado ele nervoso que dava dó. Do outro, Pilar querendo atenção, banho, pijamas. Fui atendida pelo departamento superior. Só imagino que foi de lá que veio a mágica que me fez conseguir dar banho e vestir Pipa sem largar Tim. Um pronto, me abracei com o outro, nu, fechei os olhos e esperei pacientemente. Mantive em foco que ele ainda não sabia lidar com aquilo e que a adulta era eu. Eu tinha ciência de tudo o que ele não tinha. Pra cada não gosto de você respondi com mas eu gosto muito de você. Foi osso. Só de instinto não sei se teria me saído bem. Cada dia me convenço mais que precisamos nos preparar, o quanto possível, para sermos pais e mães. Mas passou. Passamos. ❤️

Advertisements

O tempo e a qualidade.

31757648_1000867906704916_5862705619751927808_n

Hoje Martim me disse, do nada: Mamãe você ama eu. Você é divertida. Passada a euforia, não me iludo. Apesar de ter um emprego que me proporciona chegar em casa por volta das 16h, o tempo com a mãe nunca é o bastante. Pelo menos para seres de 3 anos. Estou de férias há exatos 17 dias. Dezessete dias em casa 24 horas por dia. Por isso Martim finalmente entendeu, a ponto de verbalizar, que eu o amo. E, sim, de férias, cuca e tempo frescos, sou a mãe mais divertida do mundo. Isso me lembra algo que vi, acho que foi no documentário O Começo da Vida, quase certeza. Uma mãe que diz que esse papo de que eu passo pouco tempo com meus filhos – mas é tempo de qualidade, é balela. Criança quer tempo, quanto mais tempo com os pais, melhor. A verdade é essa, embora seja ruim de engolir para nós que trabalhamos fora. É ruim pra mim. Não me iludo. Pilar e Martim me querem, ainda, por 24 horas. Vai chegar a época que já não serei mais tão vital. Nesse ponto, estou com eles. Quanto mais tempo antes desse tempo, melhor. Tenho sorte, eu sei, de chegar às 16h. É antes um desabafo que uma reclamação.

Elas precisam ajudar.

30953887_557444151294098_1539992199364608000_n

Tenho lido sempre sobre a importância de um ambiente colaborativo em casa para a autonomia das crianças. Que elas possam participar ativamente das tarefas domésticas .Aqui todo mundo guarda os brinquedos, coloca e tira os pratos da mesa, varre jardim, joga roupa suja no cesto, guarda o sapato na porta antes de entrar em casa, entre outras coisas adequadas à idade deles. Mas nada, nada mesmo, fez tão bem à auto-estima de Pi e Tim quanto fazer o próprio cuscuz 😂. Que seres incríveis somos quando crianças. Como aprendemos tanto com tão pouco e tão rapidamente. Como é importante não perdermos essa oportunidade. Lembra quando nossos pais diziam Você ajuda ficando quietinho ? Pois bem, se nós já não engolíamos, essa geração então…❤️🐘🐘

Eu vi o mundo…ele começou lá em casa.

 

31070312_163928720965591_6488371256860082176_n

“Eu vi o mundo…ele começava em Recife.” Eu acredito, Cícero. O mundo começou lá em casa. Ele começa cada vez que uma criança nasce. Eu não acredito, Cícero, é que o mundo começa do nada, sem memórias e experiências. Minha crença é que estivemos por aqui recomeçando várias vezes, pra irmos aprendendo devagar. E que cada recomeço é um ‘ vai, começa melhor dessa vez’ amoroso e insistente. Portanto, me sinto escolhida a dedo para estar com quem estou. Para ser mãe, companheira, filha, neta, irmã, tia, prima, nora, amiga. Não estamos juntos ao acaso. O nascer não é aleatório e o criar é missionário. Tenho sempre isso em mente. É bom nos momentos bons. E é muito importante nos momentos ruins. ❤️

Bora brincar lá fora!

30602495_195687927823022_4018597081194168320_n

A delícia e o privilégio de ter um jardim. Toda criança devia ter esse direito. Grande, pequeno, minuciosamente planejado ou nascido ao acaso. Um jardim. O brincar livre e ao ar livre segue sendo uma das bandeiras fincadas em meu coração de mãe. Vejo como é importante esse inventar diário, se molhar, se sujar, cair, ralar o dedo e o joelho. Procurar lagartixa, ouvir passarinho, fazer bolo de terra, sopa de folha, ver o céu mudar de cor. Pilar e Martim tem sorte, eu sei. Mas sei também que tem um parque por aí, não tem? Uma manhã ou tarde no parque já faz diferença para qualquer criança. Ficar descalça na grama, pisar em folha seca, terra molhada, levar picada de formiga. Observar a natureza restaura o nosso equilíbrio. Sim, o dos adultos e o das crianças também. Elas precisam disso. Essa reconexão é necessária. Somos parte do ecossistema, precisamos todos nos reencontrar. Muitas pesquisas, inúmeros livros estão teimando em nos dizer que nossas crianças precisam ir lá pra fora já. No jardim de casa, do prédio, na praça ou no parque elas são livres para brincar sem guias, pra experimentar. Ah, mas as praças e os parques perto lá de casa são inseguros….verdade. Eles estão vazios porque são inseguros e são inseguros porque estão vazios. Como resolver? Como ocupar os espaços públicos aos quais nossas crianças tem direito? Isso é uma discussão que precisa acontecer. Perdoem o trocadilho, mas precisamos nos ocupar desse assunto também. Bora pensar junto? Quem tem uma ideia?

Na cama dos pais.

30085596_184450928860953_4013709081993805824_n

Filtro 1977 em homenagem à cama compartilhada de meus pais. ❤️Essa noite, colocando meus filhos pra dormir, lembrei tanto, tanto da magia daquela cama. Ali nada de ruim me atingia. Minhas inseguranças fugiam. Meu sono era tranquilo e seguro. Até hoje, quando me angustio muito com algo, desejo profundamente deitar lá, ser acolhida e deixar a mágica acontecer. Compartilhar minha cama com Pilar e Martim é um dos Top 10 das melhores coisas da vida pra mim. Não tem livro, psicólogo nem experiência que me convença do contrário.

Que bom pedir ajuda.

30084397_165822590795259_2608029529406439424_n

Antes dos meninos nascerem um dos meus defeitos mais potencialmente danosos para mim mesma era o fato de não me permitir pedir ajuda. Me julgar autossuficiente. Não era sobre ser egoísta, arrogante ou o que possa parecer. Era medo. Conclui que não pedia ajuda por medo de me expor e de ser criticada. Mas claro que o departamento lá de cima encontrou uma maneira de resolver. E precisei contar com toda ajuda do mundo para receber Martim e Pilar. Precisei de alguém para gestar, alimentar, amar meus filhos. Você consegue imaginar o que isso significa? Transgressão total. Exposição absoluta. E uma chuva de críticas. Desde que decidimos seguir com a bariga solidária até o nascimento, fiz faculdade, pós graduação e mestrado em Ciências da Humildade e da Gratidão. Depois que nasceram, comecei meu doutorado, sem data para acabar, no mesmo tema. Que delícia poder pedir e receber uma força. Que incrível me sentir cada vez mais corajosa para ouvir críticas.Seja lá sobre o que for. Lembra daquele ditado que diz que é preciso uma aldeia inteira para cuidar de uma criança? Pois bem, ele é pura verdade. Esse desabafo me veio à cabeça depois que recebi essa foto de um encontro na casa de queridos ontem. Notem um braço amigo me ajudando… a jogar cartas. 😂❤️

Em quem você vai votar?

29418251_1646437502058921_6507842838988849152_n

Gábi, você gostaria que seus filhos fossem políticos? Se eles forem íntegros da maneira que me dedicarei para que sejam, sim mil vezes. Sim mil vezes para que uma nova geração tome o poder pelo real sentido da política. Pelo outro, pelo coletivo, pela dignidade, pela igualdade social, justa e humana. Tem muita gente boa criando muita gente boa. Vejo isso na minha sala de trabalho, onde moro, onde almoço, independente do lado. A revolução se faz nas ruas e nas urnas, mas ela começa nos lares. Tenho ainda mais certeza disso quando penso nas famílias de cada pessoa que lembrei escrevendo esse post. Não vamos esmorecer. A revolução já começou pra muita gente. Ela acontece no jardim, na escola, na mesa de jantar, no sofá de casa. Mas ela se fortalece no exemplo.

Ferdinando e as flores.

29400794_2105971946345993_4427105198971813888_n    Ele ficou na fila da pinturinha decidido a ganhar uma flor vermelha. Quando o rapaz terminou, pediu brilho. Natural. Martim ainda não conhece os escudos do Capitão América, do Batman ou do Superman. Não significam nada pra ele. Não sabe que meninos gostam de aventura e meninas de flores. Todo mundo achou engraçado. Eu também ri, emocionada, achando uma escolha linda, que só confirma que as crianças nascem livres e a gente é que faz de tudo para enquadrá-las. Tim ainda não se constrange por ser menino e querer uma flor vermelha no braço. Quisera eu que essa liberdade fosse eterna. Para os meus, os seus, os nossos.

Testando a Disciplina Positiva.

 

28752585_996076213889699_7027488745993535488_n        A primeira pessoa que me falou sobre Disciplina Positiva foi uma grande amiga e grande mãe também. E resolvi estudar pra entender melhor. Fiz um curso on line, nos encontramos, a DP e eu, e nos reconhecemos. É que, prestes a fazer 40 anos, fui tomada por profunda crise existencial que me obrigou a voltar para a terapia. Dei de cara com um profissional que me propôs atitudes práticas para conviver melhor e ir resolvendo questões antigas, sobre as quais eu já conhecia causas e efeitos. Coincidentemente, ou não, bem alinhado com as abordagens de Adler e Dreikurs, psicólogo e psiquiatra que inspiraram Dra. Jane Nelsen a criar a Disciplina Positiva. Na terapia, entendi que vivo um setênio que vai até os 42 anos e é justo o tempo em que começamos, mais enfaticamente, a nos perguntar: o que é mesmo que eu estou construindo? O que vou deixar para o mundo? E ai, essa mulher que criou 7 filhos, além da DP, olha pra mim, me abraça 😜e diz que é seu sonho ” (…) criar a paz no mundo através da paz nos lares e salas de aula. Quando tratemos as crianças com dignidade e respeito, e lhes ensinemos valiosas habilidades de vida para formar um bom caráter, elas derramarão paz no mundo. ” Estou em crise. Bateu. Isso eu posso fazer hoje, ainda dá tempo. E, por fim, e o mais importante, Martim. Pilar também. Mas Martim me faz ter que parar mais vezes e repetir pra mim mesma que o adulto sou eu. Tenho estudado e treinado. É fácil? Não. É bem difícil às vezes. Funciona? Sim. Me sinto menos frustrada, mais empoderada e percebo que meus filhos se sentem mais tranquilos e acolhidos. Funciona sempre? Talvez. Porque mesmo num final de semana como o que passou, quando tive que entrar no pula-pula e tirar o menino à força, depois de todas as tentativas de diálogo, fiz de maneira mais respeitosa, com calma, embora chateada. Talvez, sim, funcione sempre. Vou continuar treinando. Vamos ver.